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Falando da Terra

Esta esfera imperfeita, rodeando em elipse uma estrela pequenina na borda mais brega da região ocidental da Galáxia, foi apelidada de planeta Terra pelos humanos. Ela tem aproximadamente 4,6 bilhões de ciclos solares e passou pelas mais diversas transformações para chegar ao estágio de desenvolvimento que se encontra, se recriando e redestruindo a seu bel-prazer, e não aparenta querer parar tão cedo.

Os seres humanos contemporâneos (para não usar em vão 'modernos') não existiam 100 mil ciclos solares atrás; um nada comparativamente à Terra. Dotados de racionalidade, eles têm a magnífica capacidade de serem irracionais, qualidade esta que os distingue de qualquer outro animal nascido na Terra, já que todos os demais (salvo os golfinhos e ratos*), até o momento, caem na classificação de não-racionais.
Com essa irracionalidade concluíram que o planeta existe para seu desfrutar, sendo assim alguns o desfrutam de fato, enquanto outros tentam 'salvá-lo' dos primeiros.

Levou muito tempo e a existência e extinção de muitas criaturas para que fosse formada na Terra uma atmosfera adequada à sobrevivência da diversidade encontrada nela hoje. Que outra maneira além do surgimento de vegetais seria possível à Terra criar massivas quantidades de oxigênio?
Considerando isso, atribui-se às plantas o surgimento de algo que não poderia ser criado espontaneamente. Pois bem, estou convicto de que o surgimento de uma raça com capacidade de raciocínio lógico não foi por acaso. Mesmo os próprios seres humanos aparentam ter uma curiosidade por responder: "Por que estamos aqui?"
Bem, minha conclusão até o momento é bastante simples: 'Plástico'.

A Terra por si só não conseguiria produzir espontaneamente o plástico. Para isso criou as condições necessárias para o surgimento dos seres humanos e que eles tivessem o material necessário para manufaturarem o tão desejado substrato de petróleo.
Para quê um planeta precisa de plástico, ainda não sei. Mas os planetas costumam ter a razão no final, uma vez que quem sobrevive escreve a História, e a Terra estará aqui para apagar as luzes depois que todos tiverem ido.

Próprio-controle

Tudo funciona muito bem quanto ao próprio-controle dos seres humanos, até dar algo de errado. Eles sentem que a geleca que chamam de corpo é o que devem chamar de 'eu' e têm plena certeza de que podem se próprio-controlar.

Quando, por qualquer motivo, se perde esse próprio-controle, há pânico. É curioso como uma caimbra, espasmos ou convulsões não são ligadas a uma ação do 'eu'. Estas são ditas ações involuntárias. Porém, involuntárias para quem?

Muito provavelmente quando pensam em vontade, pensam no 'mim'. minha vida, então eu farei o que quero" - (Frase típica de seres humanos em crise de existência)

Este 'mim', entretanto, também sofre de caimbras. O que chamam de Amor e Neura são típicas manifestações de caimbras do 'mim'. Jogam involuntariamente os pensamentos à uma direção desconfortável, chegando a machucar dependendo em que parte ocorre. Existem em maior ou menor grau, passam com o relaxamento apropriado e podem ser evitadas nos graus mais fortes, na maioria das vezes, mantendo-se aquecido.

O fato de um ser humano ter caimbras não significa, propriamente, que está com defeito. Eles vêm assim da grande fábrica e assim retornam para lá. Claro, com a dor causada por uma caimbra, a passagem de volta às vezes pode ser marcada com um pouco de antecedência... Sobre o prazo de validade, fica para outra postagem.

Sincronia

Uma vez estabelecido o que chamam de 'vida' em seus corpos, os seres humanos passam a seguir a dimensão retilínea do tempo por inércia das probabilidades. Acontece de vez em quando desses caminhos entrarem em sincronia uns com os outros, levando-os a se encontrarem.

Essa sincronia pode durar alguns segundos, como uma entreolhada rápida num corredor, seguida de um sorriso tímido. Pode levar alguns minutos, como uma chata situação de pessoas com uma falsa intimidade que se trombam acidentalmente numa fila qualquer. E pode acabar delas ficarem presas num ciclo de encontros sucessivos, deixando bem confusos aqueles que o percebem.

É interessante observar esses ciclos. É possível assisti-los como se fossem um seriado, uma novela, uma historinha ou como o que quer que tenha metaforizado. Basta eleger um personagem principal e começar a traçar a linha de encontros dele. Verá que acontecerão 'ondas' de aparições de uma mesma pessoa durante um período. Com a mesma velocidade com que essa pessoa surgiu ela desaparece da linha que o personagem principal está seguindo, dando espaço a outros coadjuvantes a fazerem uma pontinha no episódio seguinte.
Claro que até com a cognição humana se pode antecipar as probabilidades de um encontro, mas saindo da sincronia, as mais incríveis improbabilidades acontecerão para que um encontro não ocorra.

Bem como numa dança, cada uma das partes num encontro tem seu ritmo, e é o ritmo particular a cada ser humano que vai definir a afinidade dos encontros. Esse ritmo pode ter vários outros nomes: química, aura, espírito, personalidade, energia, etc., todos se referindo à compatibilidade do par.

É complexo lidar com essas características dos seres humanos. Por um lado, pode ser que duas pessoas tenham uma sincronia perfeita, sempre estão lado a lado, mas falta ritmo a eles, ocasionando uma sensação desagradável de perseguição. Por outro, o ritmo deles pode ser impecável, mas sem sincronia pode ser que nunca se encontrem.

Encontros

Entre o período de tempo do não-existir ao deixar-de-existir, algumas coincidências acontecem e pessoas acabam se encontrando. Cabe ao acaso, destino ou sorte decidir se duas pessoas vão acabar se encontrando, ou não, durante sua estadia carnal. Isso vale para cada pessoa que se encontra. Sejam as figuras parentais - sempre por perto para tudo -, seja o popstar que está em turnê do outro lado do mundo; dos amigos/parentes que moram longe, até o mendigo por quem se passa desapercebido todas as terças-feiras de manhã; são todas pessoas a quem pode-se encontrar apenas uma vez na vida.

Apenas Encontrar é algo comum na racionalidade humana. O Conhecer é algo ainda muito além das suas capacidades. É natural para eles simplesmente Acreditarem e pronto. A partir do momento em que se passa a acreditar em algo é quando se deixa de tentar entendê-lo, é estar satisfeito com o quanto se conhece, e isso normalmente é bem pouco.
No caso de humanos entendendo outros humanos, é difícil. A lei do menor esforço prevalece e acabam se acomodando com as outras pessoas como elas estão. Se se conhece alguém por um certo período já é o bastante para não questionar suas razões e sentimentos por trás de cada ação.
Com isso não digo que o melhor seria todos eles entrarem em conflito o tempo todo, acusando uns aos outros ou o que for. Mas sim que a fé e confiança nas pessoas não cegasse a curiosidade em conhecer os outros.

Duvide do seu humano. Questione a ele e a si mesmo quanto suas razões. Interprete seus sentimentos de mais de um ponto de vista sempre que possível. Não acredite que ele é apenas o que deixa transparecer. Há muita coisa a se descobrir se deixar fluir as dúvidas que se sente.

Profissão

Devido à insatisfação deles em morrer - ainda pior, fazê-lo como um anônimo - seres humanos escolhem profissões para se rotularem e não serem descartados como 'outro', na coleta seletiva da grande Fábrica de reciclagem que é a Vida.

Desde pequenos são estimulados a pensar no que querem ser quando ficarem mais velhos, variando muito dependendo da visão de mundo que o círculo social permite. Isto é, não é que as crianças humanas pensem que querem seguir uma ou outra profissão por mero acaso, mas sim que desde o início são direcionadas a imaginar-se exercendo profissões com valor social elevado, segundo seus educadores. Não é verdade que eles atingirão esses objetivos infantis com sucesso, salvo algumas exceções, mas é por aí que começa.

O fim de algo só se dá quando se esgota a memória sobre ele. Após o esfriamento do corpo físico o que resta é a memória das pessoas com quem se conviveu. A profissão é uma das últimas coisas da qual se esquece quando se pensa num indivíduo. 'O médico', 'o traficante', 'o catador de latinhas' ou 'o professor', substituem mais facilmente Francisco, Adriano, Leonardo ou Gabriel - não respectivamente - do que qualquer outra conotação. Sendo assim, uma pessoa sem uma profissão sente que não tem a que ser ligada depois de sua passagem de volta à Fábrica.

Sobre as roupas

Tenho dificuldade em entender a vestimenta dos seres humanos. Ou, pelo menos, alguns porquês sobre ela.

Por exemplo, chegando mais um momento de desaproximação do Sol deles para o hemisfério em que tenho que viver para não pagar impostos, as coisas estão ficando um pouco geladas por aqui. Decidi então ir em busca de algo que me aquecesse o corpo. Sabendo que sou alérgico ao calor humano, principalmente os que vêm enlatados ou na forma de fast food, fui atrás de algumas roupas.

Para esclarecer uma curiosidade, a economia deles é bastante capenga, confusa, desonesta e peluda. Capenga porque pende para um lado mais do que para outros, evidentemente sempre pro lado minórico. Confusa pois é preciso passar uns bons anos numa faculdade só para poder ler um caderno do jornal. Desonesta porque nas vezes que acreditei nela ela me enganou. E peluda porque... Bem, coisas peludas normalmente não são de todo agradáveis de se engolir. Mas, enfim, vai funcionando do jeito que dá e tem um monte de humanos sendo suicidado só para mantê-la assim.

Continuando, para achar vestimentas fui encarar o ápice do atual modelo econômico deles: o Shopping Center. Andava por seus corredores sabendo que era observado por predadores que espreitavam de suas vitrines, prontos para abater minha carteira e se deliciar com a celulose coloridamente padronizada que tanto os agrada. A cada loja que passava perto para avaliar se os produtos serviriam aos meus interesses, mais me surpreendia com as artimanhas que desenvolviam para me convencer de que é muito melhor usar marrom-acinzentado em oposição ao cinza-amarronzado, e que a diferença estratosférica de preço é facilmente compensada pela total infelicidade das pessoas que não tiverem uma roupa de acordo com o gosto de uma Pessoa de Muito-bom-gosto (que eu nunca vou conhecer, nem mesmo para bater um papo).

Blusas e casacos eram meus alvos. Procurei em cada loja que achei que agradaria essa Pessoa de Muito-bom-gosto, mas estava muito difícil conciliar o gosto dela com o meu. O meu gosto é que uma blusa ou casaco me aqueça de verdade (assim, com terminações nervosas sendo estimuladas e tudo mais), o gosto dela é que o casaco faça com que eu pareça não me importar com o frio que estiver fazendo. Eu realmente tenho dúvidas se na Terra de Muito-bom-gosto chega a esfriar.
Enfim, o que concluí foi que as roupas que desempenham bem a função básica de uma vestimenta são as que menos agradam. As que agradam e desempenham parcialmente a função são as mais absurdamente caras. As que esquentam um pouquinho se se concentrar bastante em imagens mentais de lugares quentes, e até que não desagradam, não existem no seu tamanho. As que de fato agradam a Pessoa de Muito-bom-gosto são encontradas aos montes, pois as pessoas insistem em comprá-las e, passando frio, retornam para comprar mais, não percebendo que não adianta muito usá-las com esse propósito.



Bom, mantenha seu humano vestido, eles são muito feios quando pelados.