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Encontros

Entre o período de tempo do não-existir ao deixar-de-existir, algumas coincidências acontecem e pessoas acabam se encontrando. Cabe ao acaso, destino ou sorte decidir se duas pessoas vão acabar se encontrando, ou não, durante sua estadia carnal. Isso vale para cada pessoa que se encontra. Sejam as figuras parentais - sempre por perto para tudo -, seja o popstar que está em turnê do outro lado do mundo; dos amigos/parentes que moram longe, até o mendigo por quem se passa desapercebido todas as terças-feiras de manhã; são todas pessoas a quem pode-se encontrar apenas uma vez na vida.

Apenas Encontrar é algo comum na racionalidade humana. O Conhecer é algo ainda muito além das suas capacidades. É natural para eles simplesmente Acreditarem e pronto. A partir do momento em que se passa a acreditar em algo é quando se deixa de tentar entendê-lo, é estar satisfeito com o quanto se conhece, e isso normalmente é bem pouco.
No caso de humanos entendendo outros humanos, é difícil. A lei do menor esforço prevalece e acabam se acomodando com as outras pessoas como elas estão. Se se conhece alguém por um certo período já é o bastante para não questionar suas razões e sentimentos por trás de cada ação.
Com isso não digo que o melhor seria todos eles entrarem em conflito o tempo todo, acusando uns aos outros ou o que for. Mas sim que a fé e confiança nas pessoas não cegasse a curiosidade em conhecer os outros.

Duvide do seu humano. Questione a ele e a si mesmo quanto suas razões. Interprete seus sentimentos de mais de um ponto de vista sempre que possível. Não acredite que ele é apenas o que deixa transparecer. Há muita coisa a se descobrir se deixar fluir as dúvidas que se sente.

Profissão

Devido à insatisfação deles em morrer - ainda pior, fazê-lo como um anônimo - seres humanos escolhem profissões para se rotularem e não serem descartados como 'outro', na coleta seletiva da grande Fábrica de reciclagem que é a Vida.

Desde pequenos são estimulados a pensar no que querem ser quando ficarem mais velhos, variando muito dependendo da visão de mundo que o círculo social permite. Isto é, não é que as crianças humanas pensem que querem seguir uma ou outra profissão por mero acaso, mas sim que desde o início são direcionadas a imaginar-se exercendo profissões com valor social elevado, segundo seus educadores. Não é verdade que eles atingirão esses objetivos infantis com sucesso, salvo algumas exceções, mas é por aí que começa.

O fim de algo só se dá quando se esgota a memória sobre ele. Após o esfriamento do corpo físico o que resta é a memória das pessoas com quem se conviveu. A profissão é uma das últimas coisas da qual se esquece quando se pensa num indivíduo. 'O médico', 'o traficante', 'o catador de latinhas' ou 'o professor', substituem mais facilmente Francisco, Adriano, Leonardo ou Gabriel - não respectivamente - do que qualquer outra conotação. Sendo assim, uma pessoa sem uma profissão sente que não tem a que ser ligada depois de sua passagem de volta à Fábrica.

Cegueira

Sempre que um humano pára para pensar ele tenta abranger todas as possibilidades, todas as conseqüências dos seus atos e dos outros ou, no mínimo, mais ou menos o que se esperar deles.

Tenho plena certeza que isso é algo da qual eles se orgulham, e muito, quando acertam. E vale da mesma forma aos que acreditam nos instintos, sorte, intuição e sentidos extras - não só na razão bruta. É legal para eles sentirem o gosto da vitória sobre o destino, do controle e da pseudo-onisciência, por mais ilusório que seja.
Porém, quando erram é um momento de revelação. E afirmo que é o momento mais lindo de todos. É quando percebem por uma fração de tempo que o improvável acontece. Nesse momento os limites do possível se alargam, tornando-se milhares de vezes maiores do que eles conseguiam perceber. Suas mentes se transformam em algo entre bolinhas de gude e isopor, passando por pasta de dente e talvez um sofá, durante o processo em que compreendem sua inferioridade diante da imensidão das improbabilidades de um universo quase infinito tridimensionalmente. É lindo, bonito mesmo. Mesmo que não se diga isso olhando apenas para a face deles.


O fato é que eles enxergam três dimensões, se movem em quatro (uma delas com direção e sentido naturalmente imutáveis, o Tempo - mas ilusório quanto ao módulo) e tentam pensar em cinco, a dimensão das probabilidades. Só nessa matemática louca já se percebe como é complicado para eles tentarem antecipar as coisas. Eles não são cegos de nascença, mas criam bloqueios logo cedo para não acabarem enlouquecendo (ver infinitos mundos, com infinitos meios de sair de um útero, de diferentes perspectivas tempo-espaciais, assusta qualquer um - daí o choro incessante). Sendo assim, criam limites até certo ponto e dentro desse espaço mental constroem sua projeção de mundo. Cada vez que esses limites são quebradas se dá pelos erros cometidos ao tentar manipular mentalmente as probabilidades fora do seu mundo.

A diferença deles para com os outros animais terrestre é que eles tentam e tentam prever as conseqüências para se sentirem felizes ao final (não pelo prever em si, mas conseguir chegar às possibilidades mais favoráveis). Os demais animais simplesmente o são no presente e ponto. Ou seja, são cegos que saem tropeçando por aí em busca das chaves do carro para darem uma volta, ir ao cinema talvez, enquanto folheiam uma revista de moda ou de design de interiores, segurando velas por estar muito escuro no celeiro. E os demais animais vão andando aproveitando a brisa fresca de uma tarde de domingo no Outono, sem se preocupar se estão vestidos ou não.


Não lembro direito onde queria chegar, mas tem alguma coisa bem legal para se tirar desse texto para compreender e aproveitar da melhor forma possível o seu humano.